Chamam-se Survival Research Labs, ocupam-se com teatro de máquinas. Nas apresentações, a sensação de caos é notável, com os protagonistas cruzando papéis num diálogo praticamente bélico. Convivem personagens crus, gritando os circuitos, as articulações, correias, engrenagens, e personagens estilizados, de pele fingida. O escárnio é a marca implícita em todas as conversas, entre o fogo, a fumaça e o ruído.
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012
domingo, 12 de agosto de 2012
Tenda
Era uma casa muito engraçada
Não tinha teto não tinha nada
Ninguém podia entrar nela não
Porque na casa não tinha chão
Ninguem podia dormir na rede
Porque...
- Cara. Não suporto esse apartamento. Às vezes dá vontade de fugir por um mês pra esquecer as paredes.
Essas foram as palavras que ouvi dum sujeito amigo meu. Melhor: sujeto(a)s amigo(a)s, incluindo similares de outrem.
Fico chocado com a repugnância que pessoas têm em relação ao troço chamado casa nos tempos que correm agora.
Um francês disse que a verticalização arquitetônica que toma a grande cidade dissolveria a possibilidade da memória afetiva contida na geometria do abrigo. Que a casa, caixa contra-universo, era o assentamento primeiro do Homem, mãe, útero posterior, eu confrontando um cosmos.
Deliravam os metafísicos ao afirmarem 'o menino quando nasce é jogado no Mundo, abismal'.
O menino quando nasce é jogado na casa. Chão-parede-teto ? Só isso ?
Não deliravam aqueles metafísicos, equivocavam-se. Delírio é o que faz do barraco um castelo. E faz-se.
Algo como: não tinha nada, mas me tinha.
Se há concreto, barro, pedra, papelão, se há, o olho do menino sensibiliza. Se não há, inventa, sonha. Em casos, casas são construídas duas vezes. Uma pela mão, outra pelo olho. E disto é feita a casa.
Um grego chamou a casa de base militar: para a guerra lá fora. E se o inimigo sabe duma ordem interna, um par de sandálias emparelhadas num canto, a cólera é inevitável.
Lembrei dos filmes de terror, em que a família compra a casa de outra, que já evaporara. Aparece sangue, vulto, retrato, frases até. Que são os fantasmas dessas belezas cinematográficas senão a memória impregnada reagindo ao inimigo, forasteiro ao qual não houve permissão para entrar ?
Pavor do próprio abrigo, contudo, que diabos ? É possível que o francês tenha arriscado bem, é possível também que o olho do menino seja capaz de sensibilizar o módulo, a repetição, o estrato. Pule de passarinho a pássaro e deixe as grades para onde se acertam, pra fora, pro Mundo, abismal.
Trecho do filme experimental
Deux Fois, de Jackie Raynal, 1968
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Acabei de ver o filme argentino La Ciénaga, da minha rede. Tava no top de ranks de cinema latino-americano (não falo da relação de amor/ódio com ranks aqui).
Percorri cena por cena com uma sensação incômoda. A de que havia uma tragédia em tudo ali na frente, sem que se pudesse saber de que se tratava.
Acontecimento com o corpo - o peito rasgado da velha, o dente saindo do céu da boca no garoto (e a queda última antes de conhecer o cão vizinho), o nariz fraturado ... - costurado insistentemente com o múrmurio televisivo da revelação da Virgem na caixa d'água.
Rosto sério ou ébrio.
Intuí que tinha dedo francês no meio, e tinha. Foi uma merda eu ter intuído isso, porque corro um risco grande de ter sido condescendente com um preconceitozinho medíocre.
Mas foi bom porque lembrei que o Sartre disse numa entrevista que tava fazendo um livro sobre o corpo (com o dono deste, que é o próprio) e não ia conseguir acabar.
Vou ter que revisitar a entrevista pra saber detalhes.
Por outro lado, o contra-incômodo: é preciso tanto silêncio, morbidez, tanta morosidade, pra um mergulho?
Não há fundura na palavra, no afoito, na audácia, no humor? Diria-se: - Não pode ser. O humor dilui a tragédia e resgata o suicida.
E não é a angústia o resgate contínuo do suicida ?
Vê-se,
Dispensa-se dedos. É preciso, entre outras coisas, a queda, o peito rasgado e permitir corrimento de sangue.
Penso que tem sangue nas bandeiras pra isso. Tem coisa por vir.
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sábado, 23 de junho de 2012
Do que não sei o nome eu guardo as semelhanças.
Não assento aparelhos para escuta
E nem levanto ventos com alavanca.
(Minha boca me derrama?)
Desculpem-me a falta de ignorãças.
Não uso de brasonar.
Meu ser se abre como um lábio para moscas.
Não tenho competências pra morrer.
O alheamento do luar na água é maior do que
o meu.
O céu tem mais inseto do que eu?
Não assento aparelhos para escuta
E nem levanto ventos com alavanca.
(Minha boca me derrama?)
Desculpem-me a falta de ignorãças.
Não uso de brasonar.
Meu ser se abre como um lábio para moscas.
Não tenho competências pra morrer.
O alheamento do luar na água é maior do que
o meu.
O céu tem mais inseto do que eu?
Manoel de Barros
Não merece sinopse.
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